Religando

sexta-feira, 2 de março de 2012

A gente não precisa de um salário
Um débito automático todo dia 25
Ou um décimo terceiro fundo de garantia
A gente precisa só e precisa mesmo é de um interlocutor.
Pode ser um C3, um sms, 140 caracteres, um gato ou alguém de verdade
Dessas com cheiros, clichês e rituais.

Já pensei em ir de vez, ir de vez, já pensei.
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Sobre misturar Boça e Drummond

quarta-feira, 3 de agosto de 2011


Puta mundo vasto mundo injusto,
Se eu me chamasse Raimundo e não Boça seria uma rima e não uma solução né meo!
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Caso incomum de trânsito

domingo, 3 de abril de 2011

Ia descendo a Nações Unidas em direção ao centro da cidade por volta da hora do almoço de um sábado cinza de abril. Navegava com sua motocicleta pela avenida e já perto de casa viu o sinal amarelar pouco à sua frente. Não adiantaria acelerar, pois àquela distância o vermelho era um óbvio ululante e inevitável.
Parou e começou a esperar a eternidade efêmera que é cada segundo nos semáforos de cada esquina dessa Cidade Sem Limites pra paciência. De repente ouviram-se três buzinas do carro de trás, um carro grande e prata, que colocava algum respeito naquele grid de largada. Abstraiu, certo de que não era com ele. Ainda tentou reconhecer pelo retrovisor algum possível conhecido. Não conhecia, certamente a moça buzinou pra outro alguém que passava ali na praça.
Não mais que de repente viu pelo retrovisor a tal criatura impaciente dentro do carro, tirando o cinto com pressa. Cogitou a possibilidade de a moto estar em chamas e ele ignorar esse fato, de modo que a moça estaria tentando alertá-lo do perigo iminente de morrer carbonizado na Nações Unidas, mas eis que ela sai do carro no meio da rua e vem em sua direção.
Certamente ela ia tirar satisfação por uma seta não dada algumas esquinas atrás, afinal é uma pessoa extremamente convicta da importância da seta no trânsito de uma cidade média. Ou então vem avisar que sua moto está muito suja, sim, seria plenamente possível, afinal ela estava imunda, mas quem, diabos, desce do carro no meio da rua com o semáforo fechado com tal intenção? Não, provavelmente não era com ele, ela iria dar um recado em outro carro que a acompanhava para uma viagem, porque provavelmente precisava rever o nível de água do motor.
Todas essas hipóteses se mostraram falsas, mas não mais absurdas do real propósito que tinha aquela mulher ao abandonar seu carro no meio da rua na espera pelo sinal verde. Ela abriu a porta, desceu do carro, veio correndo até ele e disse:
__ Moço, você não quer me vender esse chaveiro que tá na sua mochila?!
Ele não fazia rigorosamente a menor idéia se sua mochila tinha um chaveiro, afinal ele só a usava pra viagem, muito menos de que chaveiro se tratava. Naquele minuto ele só tinha certeza de duas coisas. Uma que essas coisas estranhíssimas não devem ser tratadas como qualquer coisa, elas fazem parte de um pequeno conjunto de fatos improváveis e o improvável deve ser tratado como sacro. E depois seja lá qual fosse o chaveiro que estivesse naquela mochila não seria nada que não merecesse ser posto à venda em nome daquela condição tão peculiar. Mas o sinal acabara de esverdear, e ele rapidamente respondeu “Só um minuto”.
Encostou a moto, enquanto ela voltou correndo ao carro e encostou logo ao lado. Ele desceu, tirou a mochila e viu que o chaveiro era desses tipo mosquetão de alpinistas, porém absolutamente ordinário, desses que se ganha em oficinas quando se troca o óleo, desses que se perde na rua, sem o menor valor comercial. Mas não era o valor de troca que importava aí. Importava negociar um chaveiro cretino no meio da rua com uma desconhecida, que não pensou o quão ridícula estava sendo, se interessando pelo chaveiro da mochila do motoqueiro que parou à sua frente no semáforo.
Na calçada reconhecendo o chaveiro e perguntou:
__ Esse?!
__ É, eu perdi minha chave dessas de partida na enxurrada, porque ela não encaixa direitinho aqui, sabe, então eu precisava de um desses igual o seu.
Ele cogitou dar o chaveiro a ela, não faria a menor diferença, mas aquilo tudo era uma digressão tão definitiva na desacelerada mecânica cotidiana daquele sábado que seria muito mais interessante levar aquilo tudo a sério e estabelecer uma relação do valor de troca pelo sagrado valor de uso daquele artefato sagrado.
__ Tá. Quanto você dá nele?
__ Não sei, dois, três reais?
__ Tá, pode ser.
Ela abre a carteira, duas notas de 2.
__ Tó, 4.
__ Beleza.
__ Obrigada viu moço!
E ele, incrível daquela situação esquisitíssima, respondeu:
__ Tá, tranquilo, obrigado!

Partiram os dois, ela jamais arrependida por ter cometido a mais completa absurdez, mas segura de que sua chave não irá mais se perder na próxima enxurrada. Ele seguiu rindo sozinho.
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Bem aventurados os que porventuram

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Ó, primeira vez que eu faço um post motivado por um tweet, acho que estou irrecuperavelmente pós-moderno. Mas como disse [escreveu] Marx na Ideologia Alemã, "Os tweets e posts se relacionam dialeticamente na contradição da prática social real" (Marx, 1978, p.67). Eu já escrevi em outros tempos sobre o poder do adjetivo, na ocasião dizia eu da potencialidade foderoza de "braços castos", etc. Agora a verborragização caminha em sentido parecido. #parnaziando

Foi quando eu porventura usei a palavra Porventura e achei demasiado puta legal. Porque é loco, eu já vi o Amarante explicando em algum lugar [da internet, evidente] o porquê do nome Ventura no 3º disco do Los Hermanos. Dizia ele que Ventura pode significar sorte ou destino, acaso. Até mesmo porque a própria palavra Sorte pode significar boa sorte ou acaso! Não é à toa que é do mesmo Rodrigo Amarante o verso "é que a sorte é preciso tirar pra ter". Isto é, quando você é pivete e diz "Vamos tirar na sorte" e joga par ou ímpar, ce tá tirando na sorte (acaso) pra ter sorte (boa sorte). Véi, só eu que acho isso genial?! É massa demais.

Foi quando eu lembrei que o sítio que meu pai [quase sempre eu escrevo pau em vez de pai. por sorte, ou acaso, eu corrijo depois] nasceu se chama Fazenda Ventura, porque na época os filhos não tinham dividido a Fazenda em 5, desde então se tornou sítio. Mas a tradição oral ainda chama o lugar de Ventura, e meu pau ainda tem um pedacim de terra por lá. Certamente a gente do Ventura não sabe o significado, mas a palavra Ventura mesmo vazia de significado é bonita.

Eu pensei hoje numas coisas sobre o Manoel de Barros e Murilo Rubião, porque me parece que gostar do Rubião e depois do Manoel tem algo a ver, porque um é realismo fantástico e o outro é fantástico que nega o realismo, mas depois um dia na vida se eu tiver sorte ou o acaso me proteger eu escrevo sobre.

Um beijos,
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Ah, retórica dos namorados

sábado, 29 de janeiro de 2011

Desde que eu voltei de Araraquara tenho prestado mais atenção nessa cidade, e Bauru tem se mostrado mais interessante do que eu podia notar estando por aqui todos os dias. O fato é que depois de fazer um corre com o Zé Luís eu resolvi almoçar no centro, fazia um bom tempo que não comia beterraba. De lá o zé voltou pro teatro e eu fui dar um rolê no sebo. Depois de uns 40 minutos pentelhando por lá achei um Xico Sá por dez reais, novinho. Pra quem não conhece o Xico Sá, é o cronista e o Homem do olho do dólar, do Cheiro do Ralo.
Peguei meu livro e fui ler lá no Sesc. Há algum tempo eu não dava uma passada por lá, porque a programação do Sesc Verão simplesmente não me interessa. Aliás hoje tem teatro lá, não sei por que milagre. Desci o Sesc todo e fui lá no bosque ler meu livro, e em pouco tempo de leitura apareceram duas criaturas.
Elas não apareceram, provavelmente estavam ali antes de mim e do xico Sá, mas eu só notei depois. Era um casal de garotos, um menino e uma menina, os dois naquele negócio que você tem que andar por uma corda, segurando nas cordinhas em cima. Geralmente os casaizinhos juvenis do sesc me irritam por sua futilidade, mas esses dois me provocaram algum interesse.













Não que eu seja algum tarado que fica observando os casais alheios, mas porque eles não eram exatamente um casal. Eram dois jovens naquela fase em que o interesse pelo sexo oposto se dá por uma mediação lúdica, a brincadeira e a provocação. Era algo realmente bonito aquele mimimi dos dois, de maneira que alguma coisa de bentinho e capitu se dava em cima daquela corda bamba. Ah, retórica dos namorados!
E eu ali, com 90 anos e um livro de sebo.
Não zombes dos meus 90 anos, leitor precoce. Muitos aos 17 não pensam ainda na diferença dos sexos.
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O garoto de Bauru não é um sanduíche

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

[Esse é um post não recomendável pra quem não quer saber das coisas que eu andei fazendo. Reconheço que ele ficou um tanto quanto Essa é a minha vida. Paciência]


Daí que eu fui pra Araraquara sábado agora, pra mó de fazer um concurso pra professor em Américo Braziliense, cidade vizinha. Já é a segunda vez que eu vou pra lá depois de pautar a possibilidade de meus dias serem mais ensolarados se por aqueles lados eu for estudar as letras e exercer a docência que me deram por diploma. Cheguei sábado e voltei terça, fiquei na casa da Juliane como de costume.
Assim que cheguei a gente foi prum churrasco das pessoas Sociais, não sem antes comprar pão, linguiça, refrigerante e suco, afinal eu só podia tomar suco, em função da presença de Iodo no meu sangue. [iodo é mais forte que adamantium tenham medo de mim]. O churrasco tinha pessoas legais, ali eu era um estranho que observava não me sentindo tão estranho sendo desconhecido por todas aquelas pessoas. A playlist que soava em bom som me deu alguma familiaridade. Ok, vamos já que amanhã o Jorge tem que fazer o concurso cedo, e além disso tem que descobrir como chegar em Américo e lá encontrar a tal escola.
Uma das melhores sensações que eu senti nesses 4 dias foi pegar uma estrada absolutamente desconhecida por mim. Cada centímetro daquela paisagem era uma novidade completa, de modo que eu fiquei deveras entusiasmado para qualquer dia desses de outono dar um pião por kilometros desconhecidos com a Sharon.
Por falar na danada, quase chegando de volta a Araraquara, a corrente pulou e travou a roda traseira. Sim, Djórdge, você tinha que ter trocado a relação antes de sair de Bauru. Sharon passou o domingo no posto de gasolina, adoentada.
À tarde fomos ao SESC, tinha uma bandinha de samba-rock-funk, desses conjuntos que estimulam as pessoas a encontrar um par. Algo que vale a pena socializar com vocês: eu acabo de confirmar minhas suspeitas no Google: o trombonista da banda Samba Mistura era mesmo o Mauro Zacharias do Los Hermanos. God, porque eu não fui falar com ele, o cara tocou por muitos anos na banda da minha adolescência e primeira adulteza. Ok, sem lágrimas sofridas infinitas no meu peito.
Naquele SESC que mais parece um resort encontramos o Ju e a Lu (Junior e Luciana), amigos da Juliane. Ele tinha dreads curtos, bermuda e chinelo, ela tinha um vestidinho singelo. Numa perna dele tinha tatuado O grito, na outra tinha, de cima pra baixo: Schopenhauer, Nietzschie e Sartre. No fim daquele domingo eu teria a surpresa de que ele não fuma maconha. Esse tipo de descoberta improvável é legal. Com eles e o Rodrigo nós fomos ao Bar do Zinho, que fica ao lado de uma praça e fecha metade da rua com mesas. Ia rolar o Game Cultural Zinho, no qual as mesas formam equipes, batizam com algum nome e escrevem numa lousinha. É uma espécie de show do milhão com perguntas muito fodas de acertar. O “Woodstock” não foi muito bem, caso alguém tenha ficado curioso.

Na segunda-feira de manhã fomos atrás de uma loja da Suzuki que pudesse resolver os problemas de Sharon com cuidado. Do outro lado do centro havia uma, e isso significa uma oportunidade para passar pela Rua 5, ou o Boulevard dos Oitis, ou A Rua Mais Bonita do Mundo.

É, andamos gostosamente por várias quadras da rua 5, até chegar no núcleo do centro de Araraquara e solicitar na loja da Suzuki que fossem buscar Sharon no posto onde eu havia deixado, e dessem um jeito naquela catraca-corrente-pinhão, bonitamente chamada de Relação ou Transmissão. Combinado que eles buscariam e consertariam, fomos eu e Juliane pegar um ônibus pro campus, ia rolar a banca de defesa do doutorado da Carol, com presença de, Ai que da hora, Ligia Márcia, Ju Pasqualini e Sir Dermeval Saviani. Duarte Vader estava na Europa, caso alguém se interesse.
Sim, não me canso de reafirmar a beleza do campus da UNESP de Araraquara, e dessa vez ele está cheio de obras. O espelho d’água que o faz muito parecido com o SESC agora está todo revestido de pastilhas. Enfim, a Ju almoçou, o calor só me permitiu comer dois salgados e fomos à defesa. Foi lá na cantina que eu descobri orgulhoso que o Noroeste havia empatado com o Corinthians no Pacaembu! Encontramos as outras pessoas no meio do caminho, o Saviani estava tímido e pequeno como sempre. Lá pelas tantas do negócio a Karina me ligou, abandonei o recinto e peguei o ônibus para reencontrar a traidora do movimento da pedagogia que foi praqueles lados cursar Letras.
Pra encurtar esse diário de bordo póstumo que já ta maior do que qualquer coisa jamais rabiscada por aqui, só vou anotar algo que me é deveras significativo. Não há nada mais legal do que entrar num ônibus circular em uma cidade com a qual você não tem familiaridade e, sem saber onde fica a esquina da Rua 7 com a 15 de novembro, você pede a cobradora pra te avisar, daí ela te olha com simpatia, como se você fosse um estrangeiro e diz Pode ficar tranquilo que eu te aviso. Daí você vai viajando por Araraquara tão confortável, porque há quem se preocupe com você e vai te avisar quando for o ponto antes do cruzamento da rua 7, a não tão conhecida Rua Itália. Pedir proteção pra pessoas no ônibus é tão legal quanto trombar o Saviani no corredor do campus ou ver um show com o trombonista do Los Hermanos.

Karena Menena e eu ficamos de prosa besta no Shopping Lupo até as pessoas começarem a olhar mais cismativamente pra gente, porque era hora de fechar a parada. Não sei por que eu gosto de conversar com uma pessoa que abandonou o curso ainda no primeiro ano. Como eu mesmo disse a ela, não devia era mais olhar pra sua cara. Mas a letrista indie-rocker tem um lugar na arquibancada do meu bem querer.
Diante da mensagem que me chegava dizendo que estava a Sra. Juliane Bueno na casa de Não sei quem na Rua X a prosear com um pessoal, Karena teve que me deixar lá, porque não sabia eu como chegar no tal destino, e assim foi.
Lá estavam Juliane e duas meninas, ambas formadas em Pedagogia lá em Araraquara. Uma delas é a primeira colocada do concurso em que eu fiquei em segundo. Uma prosa só para raros.
Papo vai, papo vem, reformismo e revolução, Saviani, ortodoxia, ontologia, Sérgio Lessa, possibilidades de transformação, direitos humanos, Ligia Márcia, construtivismo, bla bla bla. De fato foi um papo massa, com pessoas firmezas, pedagogas bonitas e inteligentes na vida é algo que deve ser valorizado. E eu mei fedidinho, porque o rolê da segunda foi grandão, tsc.
Na terça-feira busquei a Sharon na loja da Suzuki e ela me trouxe de volta ao ninho.
Espero ser em breve convocado pro concurso e aprovado no vestibular, a fim de que possa cursar Letras e usufruir das dores e das delícias da Morada do Sol. As expectativas são grandes e as possibilidades de felicidade me parecem até menos egoístas do que de costume.


Visitem minha Rep, um beijos.

Sobre mingau e Coral Latex

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Deu um tempo com a parafernália da pintura no corredor e entrou pra comer um mingau de maizena. Mingau de maizena não é o tipo de coisa assim que se lamba os beiços, mas em tempo de intestino incostante é a melhor saída.
O rolo, o pincel, balde de tinta, lixa, escada aberta no meio do corredor, folhas de jornal davam um aspecto de bagunça temporária por um bem definitivo. Comer mingau, do mesmo modo, é uma espécie de bagunça intestinal temporária por um bem mais ou menos definitivo, já que seu estômago e intestino são definitivamente não-lineares.

O corredor ficou muito legal, acho mesmo que os 50 reais embolsados pela madre foram um bom investimento. Acho até que uns 80 seriam bem aplicados também. Subir no telhado, de ladinho na escada, de joelho no rodapé, a tinta caindo do teto no seu cabelo, tudo isso vale mais do que 50 reais e um mingau pra um estomago mal-humorado. Mas é quarta-feira de uma férias definitiva em um post escrito abstraidamente por mãos cheias de coral latex, então muito amor vida loka, muito amor.
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