Valesca e o fetichismo da contracultura de plantão

domingo, 13 de abril de 2014



Eu me lembro que no primeiro dia de aula no curso de Letras tinha um teatro sendo encenado e uma das personagens gritava loucamente “Kibe com coalhada é bom! Kibe com coalhada é bom!”. É com uma obsessão semelhante que se tem defendido a grandeza do funk da Valesca Popozuda, como se gritassem desesperadamente “Valesca Popozuda é cultura! Bejinho no ombro é feminismo!”. Apesar de ser legítima a repulsa pelo mainardismo cultural que despreza tudo que não é erudito ou que venha da periferia, existe um evidente relativismo na defesa do significado da música e das posições da Valesca Popozuda.

A polêmica sobre a tal prova em que o professor citava Bejinho no ombro reacendeu a discórdia. O referido professor diz que usou a funkeira pra discutir a formação de valores na sociedade, o que seria pedagogicamente muito apropriado. Mas se de fato ele o fez, não justifica ter colocado na prova algo que não passava de um “complete a sentença”, uma avaliação que se pauta pela memorização e não continha Nenhuma reflexão. Se a filosofia do tal professor preza pela criticidade em aula, mas na avaliação cobra decoreba, péssima pedagogia a dele. O fato é que o professor afirmou que Valesca é uma grande pensadora, causou polêmica e foi defendido desesperadamente por quem joga fora os critérios ao fazer a crítica do pedantismo da elite que acha que o funk de Valesca Popozuda é sub-cultura.
A condição de vadia, defendida afirmativa e combativamente pelos movimentos feministas diante da criminalização da liberdade feminina, é reivindicada como legítima desconstrução da passividade das mulheres: é preciso se afirmar vadia, querer ser vadia e ser respeitada integralmente por isso. A absurdez da culpabilização das vítimas de estupro pela moral conservadora não poderia ser enfrentada de modo menos radical. Tal contexto de afirmação e negação não poderia ser isento de incoerências e exageros, seria um preciosismo idealista exigir uma conduta incorrigível de qualquer manifestação contra-hegemônica, tal como a do feminismo que enfrenta todo tipo de violência. Porém, se há um exagero nesse cenário, certamente um deles é o significado que a Valesca Popozuda adquiriu, tomada como mártir do feminismo no funk. Trata-se de um evidente fetichismo da contracultura, pois se atribui um sentido à postura e à música de Valesca que ela não tem. Claro que dirão que a interpretação da arte é livre, etc., mas admitindo que a significação de uma obra de arte não é infinita, mas abarca um conjunto possível de interpretações, e sobretudo, considerando o contexto e o lugar social onde a arte é produzida, o funk da Valesca tem muito menos do que se tem projetado subjetivistamente nele.
Bejinho no ombro é um bom exemplo. O mais recente sucesso da ex-gaiola das popozudas, bejinho no ombro faz referência a tiro, porrada e bomba, o que entusiasma qualquer pessoa que vê em Valesca uma feminista combativa e sofisticada, uma Beauvoir carioca. Mas os tiros, porradas e bombas não são endereçadas senão às “inimigas”, suas interlocutoras na música e muito peculiares ao universo do funk. A letra sugere um espírito bastante bairrista, uma disputa entre as aliadas e as inimigas, recalcadas. O sentido da letra caminha muito mais para a explicitação de mesquinhas antipatias entre mulheres do que à afirmação da igualdade de gênero.
A referência às inimigas, no feminino, é emblemática. A posição reivindicada de vadia, cantada por Valesca na Gaiola das popozudas (“eu passava, tu não dava valor, agora que eu sou puta você quer falar de amor”), em bejinho no ombro aparece na referência às inimigas, classificadas como cachorras, pois Valesca faz de Deus o seu escudo e não pode mais ouvir o latido de suas inimigas cachorras. Como se sabe, cachorra é sinônimo de vadia no funk machista, supostamente desconstruído e superado por Valesca. Como se vê, ela não está liberta da mesquinha relação poderosas x inimigas, tão própria do funk de Anitta, a funkeira meiga que fez plástica no nariz e que publicamente afirma seu distanciamento do funk feito no morro. A mensagem de Anitta e do seu Show das poderosas não é diferente da mensagem de Bejinho no ombro, em ambos se trata da afirmação das poderosas contra as invejosas. Claro que Valesca não se reduz a Bejinho no ombro, mas é decisivamente um exagero ver no seu funk um feminismo libertador. A mesquinhez da moralidade burguesa e seu desprezo pela música feita na periferia não transforma Valesca Popozuda em mártir das questões de gênero. O fato de muitos moralistas terem se indignado contra o professor que colocou Valesca como “grande pensadora”, o que de fato ela não é, não torna seu funk isento dos ranços presentes no funk machista do qual ela é crítica. Afinal, poderosas e inimigas não são, ambas, vítimas do estigma que reduz cachorras, popozudas e preparadas a objeto sexual? O bejinho no ombro é um gesto de desprezo (“do Camarote quase não dá pra te ver”) pro recalque passar longe, e os tiros, porradas e bombas não são para a opressão ou para o machismo, mas para as piriguetes (“o meu sensor de piriguete explodiu”).
Mas qual o problema de Valesca demonstrar todas as suas antipatias contra as inimigas, piriguetes e cachorras? Nenhum, ora, qual de nós não desejamos o mesmo para nossas inimigas? O problema é projetar em Valesca os desejos por um funk engajado e libertador, por uma cultura da periferia que denuncie o machismo e que desconstrua o idealista perfil da erudição da cultura e do moralismo burgueses. Valesca não é uma funkeira feminista no sentido forte do termo e está longe de ser referência de contracultura, mas abriu o caminho pra essa possibilidade. A questão é que não se pode fazer de seu funk e de sua arte o poço dos desejos por um funk libertador e crítico, insistir nisso é fazer o relativismo de escudo ou ser extremamente imaginativo.

A dialética da aparência e essência em Laerte e Ney Matogrosso

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014



Como a complexa peculiaridade das diversidades sexuais está além do que supõe a nossa vã filosofia. Do ponto de vista da norma heterossexual masculina branca e burguesa é certamente difícil entender, por exemplo, o Laerte. Eu disse um tempo atrás que ele já não é mais cartunista, sua nova profissão é dar palestras e entrevistas explicando o que ele é afinal de contas. Um homem, que tem uma namorada, se veste de mulher, se porta como mulher, assumiu uma outra identidade de gênero, militante inclusive, mas sem interferir necessariamente na sua orientação sexual, o que é extremamente improvável. Se a vida imita a arte, nela também o improvável é imprescindível.
Há que se confessar sem desrespeito pela atitude do Laerte e de tantas outras que se trata de algo de tal modo singular que causa estranheza, e a estranheza em muitos gera o preconceito e do preconceito se vai à intolerância e desta à violência. Compreender o Laerte e a transgenericidade é, por isso, imprescindível. Talvez não haja um sujeito no qual a dialética da aparência e essência é tão complexa quanto nele. Não se trata de se espantar no sentido do pudor, afinal normativizar identidades sociais não é saudável em nenhum sentido, mas é preciso que a estranheza faça refletir sobre essas peculiaridades, pois elas não são naturais ou espontâneas, são socialmente construídas. Da mesma forma, o preconceito deve ser desconstruído concretamente, situando sujeitos reais em práticas sociais reais, e não abstratamente com discursos vagos e clericais como É preciso aceitar o diferente, É preciso aceitar o outro. Esse é o conceito de cidadania, aliás, uma igualdade abstrata. É preciso aceitar a diversidade porque a normatividade foi construída a partir de determinações históricas e sociais concretas, de uma sociedade capitalista que se pauta por uma falsa universalidade, que é a universalidade particular, de uma classe burguesa, falsa por que é particular que se pretende universal, com interesses econômicos universais, uma religião universal, um padrão estético universal, uma sexualidade universal. Falsa universalidade, portanto.
Fenômeno muito peculiar também ocorre com o nosso Fred Mercury brasileiro, aquele tiozão firmeza que a gente não teve, mas gostaria de ter, o Ney Matogrosso. Quem vê o Ney sem maquiagem, sem lápis no olho, dando entrevista, pode ter certeza de que ele poderia ser tranquilamente um tio de algum amigo seu, daqueles bem tradicionais, que afirmam Menino eu sou é homem, E COMO SOU. Aparência muito da heterossexual tem esse Ney Matogrosso, mas se a aparência coincidisse sempre com a essência seria desnecessária qualquer ciência, já dizia o Marx, afinal de contas, o sol passa em cima das nossas cabeças todos os dias, supostamente. E como é improvável o Ney Matogrosso, daí sua peculiaridade e seu valor.
Acho (e meu conhecimento sobre esse tema não ultrapassa meia dúzia de achismos, mas é preciso compreender essa questão profundamente e não apenas “lançar um olhar possível” sobre ela) que o Laerte e o Ney Matogrosso expressam na diversidade sexual e de gênero o quão é peculiar e heterogênea a configuração do ser social no que se refere à personalidade. Eles são expressão de que aparência e essência não são sempre e necessariamente antagônicos, o que seria lógica formal, tampouco a aparência sempre coincide com a essência. Nunca é demais dizer que a categoria amaldiçoada da essência não é a Natureza Eterna e Imutável das pessoas ou dos complexos sociais. Para a lógica dialética, essência são as determinações essenciais, aquilo que caracteriza fundamentalmente algo durante um momento histórico, afinal de contas a sociedade não é um amontoado de fenômenos efêmeros e fugazes que de uma hora para outra são outra coisa, como pretende vastas maiorias dos intelectuais pós-modernos. Não é porque Rousseau achava a Natureza do ser humano é boa que não exista essência humana, historicamente construída, que pode ser transformada, porém não de uma hora pra outra, sem conflitos e contradições sociais, de maneira fugaz e etérea. Se fosse verdade que não há uma relação complexa entre essência e aparência porque não existe essência, nós somos o que parecemos ser e podemos ser algo rigorosamente diferente disso amanhã de manhã. Isso é falso, pois como já sabia Renato Russo, “não é a vida como está, e sim as coisas como são”. Existe ainda uma dialética entre determinações essenciais e determinações históricas na processualidade do ser social que não cabe aqui, sobretudo porque ainda não coube na minha cabeça.
Por tudo isso há algo efetivamente importante pra se dizer sobre a peculiaridade do Laerte e do Ney, que é a heterogeneidade do social. Há quem diga que a diversidade sexual é de tal modo heterogênea que não é passível de compreensão, por isso não seria preciso categorias como lésbicas, gays, travestis, transgêneros, etc. Essa concepção repousa justamente na idéia de que não há uma essência, determinações essenciais na atividade dos gays, ou das lésbicas, ou das travestis, tanto é assim que elas podem acordar com vontade de ser outra coisa, completamente distinta, e sê-las kafkianamente, tal como Gregor dormiu uma coisa e acordou outra.
Analisando um pouco mais profundamente (o pós-modernismo dirá que isso é uma pretensão arrogante), isso implica em que apenas o que é socialmente homogêneo, apenas o que é isento de contradições é que é possível conhecer, o que é uma posição fundamentalmente irracionalista. Mas como o irracionalismo pós-moderno não pretende conhecer muita coisa além do olhar subjetivo de cada qual sobre a realidade que se reinventa, isso não é um problema para ele. De um ponto de vista crítico radical (e se não der conta de ser radicalmente crítico é preciso ter a pretensão de ser) é preciso sim conhecer as especificidades das práticas das mais diversas orientações sexuais, sua essencialidade, não anti-dialeticamente, não para colocá-los em caixinhas a-históricas, não para catalogá-los, porque eles podem sim, mediados por sua prática social, construir-se com uma outra orientação sexual ou de gênero, porém sempre de modo mediado, nunca imediata e fugazmente. Não se combate o machismo, a exploração de classe, a homofobia e a heteronormatividade sem localizá-los na totalidade social, nas determinações essenciais da sociedade capitalista e em relação com as outras bandeiras de lutas, porque o corporativismo de alguns movimentos sociais advém fundamentalmente da falta de conhecimento da totalidade, que cartesianamente separa demandas de gênero, de orientação sexual, étnico-raciais e de classe. Se eu nunca vi rastro de cobra nem couro de lobisomem, não quer dizer que eles não existam objetivamente.

Dialética do desquerer

domingo, 17 de junho de 2012

   A coisa da dialética é basicamente a noção de que tudo tem contradições. Mas isto implica em que, diretamente? Pra ser sucinto, implica que nada é absoluto.
   Tranquilo usar a dialética para as ciências sociais, para as ciências da educação, para as ciências humanas em geral. Mas e usar a dialética pra pautar os problemas da nossa vida? Ou ainda: dá pra tentar resolver com desquerer problemas que versam sobre algo de bonitês que se sente por outra pessoa? Essas linhas são sobre a importância da dialética do desquerer para entender as coisas acerca do querer.
   De um ponto de vista dialético, todo bem-querer implica um mal-querer. Tudo bem, nós podemos enxergar plenárias inteiras, ululantes, concordando com isso. O problema é definir qual é natureza da relação que o bem-querer estabelece com o mal-querer e em que medida cada um deles se coloca nessa relação. Há mais equilíbrio ou mais tensão? Mais leveza ou mais nóia? Ter clareza disso é importante, pois quando a linha do equilíbrio começa a se romper o mal-querer se torna mais freqüente do que é desejável. E é aí que entra a dialética do desquerer.
   Quando o caso começa a ficar mal-resolvido demais uma coisa se torna decisiva: desquerer. Ah, o desquerer é fundamental. Ele é precisamente a superação dialética entre o bem-querer e o mal-querer.
   Pode soar maniqueísta, mas bem-querer e mal-querer existem de fato nas mais singulares atitudes das diversas relações humanas. Evidente que o desquerer não é neutro, ele é plenamente passível de valoração. Geralmente para quem não enxerga a presença cada vez mais latente do mal-querer o desquerer não agrada nem um pouco. O fato é que em determinados momentos o desquerer se torna fundamental. Ele se coloca como possibilidade real de superação quando existe uma falsa escolha entre o bem-querer e o mal-querer. Em outras palavras: quando não há mais um Nós autêntico entre duas pessoas, ainda que quase sempre uma delas insista em não enxergar isso, o desquerer é uma opção saudável. Desquerer não é necessariamente abdicar de bem-querer alguém, tampouco uma opção pelo mal-querer. Ele é uma alternativa a isso.
   Assim, se algo está insustentável é muito melhor desquerer do que manter um malfadado bem-querer e permitir um muito provável mal-querer que se aproxima.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Tudo o que fiz foi tentar acabar com tudo que pudesse me lembrar você. Inclusive destruir os espelhos de casa. Até quando olhava para mim mesmo eu via você por fora e por dentro e por tudo. Tudo o que fiz foi acabar com tudo que me lembrava você. Quando na verdade ah não droga merda eu não acredito que merda que merdaquemerdaquemeiewrda veja não sei como não sei mesmo como na verdade eu ainda merda. (Gabriel Pardal)

Desquentrou preronautica

sábado, 12 de maio de 2012

Foto minha, texto da Bruna Beber, som do Wado, melancolia do sábado.

Religando

sexta-feira, 2 de março de 2012

A gente não precisa de um salário
Um débito automático todo dia 25
Ou um décimo terceiro fundo de garantia
A gente precisa só e precisa mesmo é de um interlocutor.
Pode ser um C3, um sms, 140 caracteres, um gato ou alguém de verdade
Dessas com cheiros, clichês e rituais.

Já pensei em ir de vez, ir de vez, já pensei.
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Sobre misturar Boça e Drummond

quarta-feira, 3 de agosto de 2011


Puta mundo vasto mundo injusto,
Se eu me chamasse Raimundo e não Boça seria uma rima e não uma solução né meo!
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Caso incomum de trânsito

domingo, 3 de abril de 2011

Ia descendo a Nações Unidas em direção ao centro da cidade por volta da hora do almoço de um sábado cinza de abril. Navegava com sua motocicleta pela avenida e já perto de casa viu o sinal amarelar pouco à sua frente. Não adiantaria acelerar, pois àquela distância o vermelho era um óbvio ululante e inevitável.
Parou e começou a esperar a eternidade efêmera que é cada segundo nos semáforos de cada esquina dessa Cidade Sem Limites pra paciência. De repente ouviram-se três buzinas do carro de trás, um carro grande e prata, que colocava algum respeito naquele grid de largada. Abstraiu, certo de que não era com ele. Ainda tentou reconhecer pelo retrovisor algum possível conhecido. Não conhecia, certamente a moça buzinou pra outro alguém que passava ali na praça.
Não mais que de repente viu pelo retrovisor a tal criatura impaciente dentro do carro, tirando o cinto com pressa. Cogitou a possibilidade de a moto estar em chamas e ele ignorar esse fato, de modo que a moça estaria tentando alertá-lo do perigo iminente de morrer carbonizado na Nações Unidas, mas eis que ela sai do carro no meio da rua e vem em sua direção.
Certamente ela ia tirar satisfação por uma seta não dada algumas esquinas atrás, afinal é uma pessoa extremamente convicta da importância da seta no trânsito de uma cidade média. Ou então vem avisar que sua moto está muito suja, sim, seria plenamente possível, afinal ela estava imunda, mas quem, diabos, desce do carro no meio da rua com o semáforo fechado com tal intenção? Não, provavelmente não era com ele, ela iria dar um recado em outro carro que a acompanhava para uma viagem, porque provavelmente precisava rever o nível de água do motor.
Todas essas hipóteses se mostraram falsas, mas não mais absurdas do real propósito que tinha aquela mulher ao abandonar seu carro no meio da rua na espera pelo sinal verde. Ela abriu a porta, desceu do carro, veio correndo até ele e disse:
__ Moço, você não quer me vender esse chaveiro que tá na sua mochila?!
Ele não fazia rigorosamente a menor idéia se sua mochila tinha um chaveiro, afinal ele só a usava pra viagem, muito menos de que chaveiro se tratava. Naquele minuto ele só tinha certeza de duas coisas. Uma que essas coisas estranhíssimas não devem ser tratadas como qualquer coisa, elas fazem parte de um pequeno conjunto de fatos improváveis e o improvável deve ser tratado como sacro. E depois seja lá qual fosse o chaveiro que estivesse naquela mochila não seria nada que não merecesse ser posto à venda em nome daquela condição tão peculiar. Mas o sinal acabara de esverdear, e ele rapidamente respondeu “Só um minuto”.
Encostou a moto, enquanto ela voltou correndo ao carro e encostou logo ao lado. Ele desceu, tirou a mochila e viu que o chaveiro era desses tipo mosquetão de alpinistas, porém absolutamente ordinário, desses que se ganha em oficinas quando se troca o óleo, desses que se perde na rua, sem o menor valor comercial. Mas não era o valor de troca que importava aí. Importava negociar um chaveiro cretino no meio da rua com uma desconhecida, que não pensou o quão ridícula estava sendo, se interessando pelo chaveiro da mochila do motoqueiro que parou à sua frente no semáforo.
Na calçada reconhecendo o chaveiro e perguntou:
__ Esse?!
__ É, eu perdi minha chave dessas de partida na enxurrada, porque ela não encaixa direitinho aqui, sabe, então eu precisava de um desses igual o seu.
Ele cogitou dar o chaveiro a ela, não faria a menor diferença, mas aquilo tudo era uma digressão tão definitiva na desacelerada mecânica cotidiana daquele sábado que seria muito mais interessante levar aquilo tudo a sério e estabelecer uma relação do valor de troca pelo sagrado valor de uso daquele artefato sagrado.
__ Tá. Quanto você dá nele?
__ Não sei, dois, três reais?
__ Tá, pode ser.
Ela abre a carteira, duas notas de 2.
__ Tó, 4.
__ Beleza.
__ Obrigada viu moço!
E ele, incrível daquela situação esquisitíssima, respondeu:
__ Tá, tranquilo, obrigado!

Partiram os dois, ela jamais arrependida por ter cometido a mais completa absurdez, mas segura de que sua chave não irá mais se perder na próxima enxurrada. Ele seguiu rindo sozinho.
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Bem aventurados os que porventuram

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Ó, primeira vez que eu faço um post motivado por um tweet, acho que estou irrecuperavelmente pós-moderno. Mas como disse [escreveu] Marx na Ideologia Alemã, "Os tweets e posts se relacionam dialeticamente na contradição da prática social real" (Marx, 1978, p.67). Eu já escrevi em outros tempos sobre o poder do adjetivo, na ocasião dizia eu da potencialidade foderoza de "braços castos", etc. Agora a verborragização caminha em sentido parecido. #parnaziando

Foi quando eu porventura usei a palavra Porventura e achei demasiado puta legal. Porque é loco, eu já vi o Amarante explicando em algum lugar [da internet, evidente] o porquê do nome Ventura no 3º disco do Los Hermanos. Dizia ele que Ventura pode significar sorte ou destino, acaso. Até mesmo porque a própria palavra Sorte pode significar boa sorte ou acaso! Não é à toa que é do mesmo Rodrigo Amarante o verso "é que a sorte é preciso tirar pra ter". Isto é, quando você é pivete e diz "Vamos tirar na sorte" e joga par ou ímpar, ce tá tirando na sorte (acaso) pra ter sorte (boa sorte). Véi, só eu que acho isso genial?! É massa demais.

Foi quando eu lembrei que o sítio que meu pai [quase sempre eu escrevo pau em vez de pai. por sorte, ou acaso, eu corrijo depois] nasceu se chama Fazenda Ventura, porque na época os filhos não tinham dividido a Fazenda em 5, desde então se tornou sítio. Mas a tradição oral ainda chama o lugar de Ventura, e meu pau ainda tem um pedacim de terra por lá. Certamente a gente do Ventura não sabe o significado, mas a palavra Ventura mesmo vazia de significado é bonita.

Eu pensei hoje numas coisas sobre o Manoel de Barros e Murilo Rubião, porque me parece que gostar do Rubião e depois do Manoel tem algo a ver, porque um é realismo fantástico e o outro é fantástico que nega o realismo, mas depois um dia na vida se eu tiver sorte ou o acaso me proteger eu escrevo sobre.

Um beijos,
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Ah, retórica dos namorados

sábado, 29 de janeiro de 2011

Desde que eu voltei de Araraquara tenho prestado mais atenção nessa cidade, e Bauru tem se mostrado mais interessante do que eu podia notar estando por aqui todos os dias. O fato é que depois de fazer um corre com o Zé Luís eu resolvi almoçar no centro, fazia um bom tempo que não comia beterraba. De lá o zé voltou pro teatro e eu fui dar um rolê no sebo. Depois de uns 40 minutos pentelhando por lá achei um Xico Sá por dez reais, novinho. Pra quem não conhece o Xico Sá, é o cronista e o Homem do olho do dólar, do Cheiro do Ralo.
Peguei meu livro e fui ler lá no Sesc. Há algum tempo eu não dava uma passada por lá, porque a programação do Sesc Verão simplesmente não me interessa. Aliás hoje tem teatro lá, não sei por que milagre. Desci o Sesc todo e fui lá no bosque ler meu livro, e em pouco tempo de leitura apareceram duas criaturas.
Elas não apareceram, provavelmente estavam ali antes de mim e do xico Sá, mas eu só notei depois. Era um casal de garotos, um menino e uma menina, os dois naquele negócio que você tem que andar por uma corda, segurando nas cordinhas em cima. Geralmente os casaizinhos juvenis do sesc me irritam por sua futilidade, mas esses dois me provocaram algum interesse.













Não que eu seja algum tarado que fica observando os casais alheios, mas porque eles não eram exatamente um casal. Eram dois jovens naquela fase em que o interesse pelo sexo oposto se dá por uma mediação lúdica, a brincadeira e a provocação. Era algo realmente bonito aquele mimimi dos dois, de maneira que alguma coisa de bentinho e capitu se dava em cima daquela corda bamba. Ah, retórica dos namorados!
E eu ali, com 90 anos e um livro de sebo.
Não zombes dos meus 90 anos, leitor precoce. Muitos aos 17 não pensam ainda na diferença dos sexos.
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O garoto de Bauru não é um sanduíche

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

[Esse é um post não recomendável pra quem não quer saber das coisas que eu andei fazendo. Reconheço que ele ficou um tanto quanto Essa é a minha vida. Paciência]


Daí que eu fui pra Araraquara sábado agora, pra mó de fazer um concurso pra professor em Américo Braziliense, cidade vizinha. Já é a segunda vez que eu vou pra lá depois de pautar a possibilidade de meus dias serem mais ensolarados se por aqueles lados eu for estudar as letras e exercer a docência que me deram por diploma. Cheguei sábado e voltei terça, fiquei na casa da Juliane como de costume.
Assim que cheguei a gente foi prum churrasco das pessoas Sociais, não sem antes comprar pão, linguiça, refrigerante e suco, afinal eu só podia tomar suco, em função da presença de Iodo no meu sangue. [iodo é mais forte que adamantium tenham medo de mim]. O churrasco tinha pessoas legais, ali eu era um estranho que observava não me sentindo tão estranho sendo desconhecido por todas aquelas pessoas. A playlist que soava em bom som me deu alguma familiaridade. Ok, vamos já que amanhã o Jorge tem que fazer o concurso cedo, e além disso tem que descobrir como chegar em Américo e lá encontrar a tal escola.
Uma das melhores sensações que eu senti nesses 4 dias foi pegar uma estrada absolutamente desconhecida por mim. Cada centímetro daquela paisagem era uma novidade completa, de modo que eu fiquei deveras entusiasmado para qualquer dia desses de outono dar um pião por kilometros desconhecidos com a Sharon.
Por falar na danada, quase chegando de volta a Araraquara, a corrente pulou e travou a roda traseira. Sim, Djórdge, você tinha que ter trocado a relação antes de sair de Bauru. Sharon passou o domingo no posto de gasolina, adoentada.
À tarde fomos ao SESC, tinha uma bandinha de samba-rock-funk, desses conjuntos que estimulam as pessoas a encontrar um par. Algo que vale a pena socializar com vocês: eu acabo de confirmar minhas suspeitas no Google: o trombonista da banda Samba Mistura era mesmo o Mauro Zacharias do Los Hermanos. God, porque eu não fui falar com ele, o cara tocou por muitos anos na banda da minha adolescência e primeira adulteza. Ok, sem lágrimas sofridas infinitas no meu peito.
Naquele SESC que mais parece um resort encontramos o Ju e a Lu (Junior e Luciana), amigos da Juliane. Ele tinha dreads curtos, bermuda e chinelo, ela tinha um vestidinho singelo. Numa perna dele tinha tatuado O grito, na outra tinha, de cima pra baixo: Schopenhauer, Nietzschie e Sartre. No fim daquele domingo eu teria a surpresa de que ele não fuma maconha. Esse tipo de descoberta improvável é legal. Com eles e o Rodrigo nós fomos ao Bar do Zinho, que fica ao lado de uma praça e fecha metade da rua com mesas. Ia rolar o Game Cultural Zinho, no qual as mesas formam equipes, batizam com algum nome e escrevem numa lousinha. É uma espécie de show do milhão com perguntas muito fodas de acertar. O “Woodstock” não foi muito bem, caso alguém tenha ficado curioso.

Na segunda-feira de manhã fomos atrás de uma loja da Suzuki que pudesse resolver os problemas de Sharon com cuidado. Do outro lado do centro havia uma, e isso significa uma oportunidade para passar pela Rua 5, ou o Boulevard dos Oitis, ou A Rua Mais Bonita do Mundo.

É, andamos gostosamente por várias quadras da rua 5, até chegar no núcleo do centro de Araraquara e solicitar na loja da Suzuki que fossem buscar Sharon no posto onde eu havia deixado, e dessem um jeito naquela catraca-corrente-pinhão, bonitamente chamada de Relação ou Transmissão. Combinado que eles buscariam e consertariam, fomos eu e Juliane pegar um ônibus pro campus, ia rolar a banca de defesa do doutorado da Carol, com presença de, Ai que da hora, Ligia Márcia, Ju Pasqualini e Sir Dermeval Saviani. Duarte Vader estava na Europa, caso alguém se interesse.
Sim, não me canso de reafirmar a beleza do campus da UNESP de Araraquara, e dessa vez ele está cheio de obras. O espelho d’água que o faz muito parecido com o SESC agora está todo revestido de pastilhas. Enfim, a Ju almoçou, o calor só me permitiu comer dois salgados e fomos à defesa. Foi lá na cantina que eu descobri orgulhoso que o Noroeste havia empatado com o Corinthians no Pacaembu! Encontramos as outras pessoas no meio do caminho, o Saviani estava tímido e pequeno como sempre. Lá pelas tantas do negócio a Karina me ligou, abandonei o recinto e peguei o ônibus para reencontrar a traidora do movimento da pedagogia que foi praqueles lados cursar Letras.
Pra encurtar esse diário de bordo póstumo que já ta maior do que qualquer coisa jamais rabiscada por aqui, só vou anotar algo que me é deveras significativo. Não há nada mais legal do que entrar num ônibus circular em uma cidade com a qual você não tem familiaridade e, sem saber onde fica a esquina da Rua 7 com a 15 de novembro, você pede a cobradora pra te avisar, daí ela te olha com simpatia, como se você fosse um estrangeiro e diz Pode ficar tranquilo que eu te aviso. Daí você vai viajando por Araraquara tão confortável, porque há quem se preocupe com você e vai te avisar quando for o ponto antes do cruzamento da rua 7, a não tão conhecida Rua Itália. Pedir proteção pra pessoas no ônibus é tão legal quanto trombar o Saviani no corredor do campus ou ver um show com o trombonista do Los Hermanos.

Karena Menena e eu ficamos de prosa besta no Shopping Lupo até as pessoas começarem a olhar mais cismativamente pra gente, porque era hora de fechar a parada. Não sei por que eu gosto de conversar com uma pessoa que abandonou o curso ainda no primeiro ano. Como eu mesmo disse a ela, não devia era mais olhar pra sua cara. Mas a letrista indie-rocker tem um lugar na arquibancada do meu bem querer.
Diante da mensagem que me chegava dizendo que estava a Sra. Juliane Bueno na casa de Não sei quem na Rua X a prosear com um pessoal, Karena teve que me deixar lá, porque não sabia eu como chegar no tal destino, e assim foi.
Lá estavam Juliane e duas meninas, ambas formadas em Pedagogia lá em Araraquara. Uma delas é a primeira colocada do concurso em que eu fiquei em segundo. Uma prosa só para raros.
Papo vai, papo vem, reformismo e revolução, Saviani, ortodoxia, ontologia, Sérgio Lessa, possibilidades de transformação, direitos humanos, Ligia Márcia, construtivismo, bla bla bla. De fato foi um papo massa, com pessoas firmezas, pedagogas bonitas e inteligentes na vida é algo que deve ser valorizado. E eu mei fedidinho, porque o rolê da segunda foi grandão, tsc.
Na terça-feira busquei a Sharon na loja da Suzuki e ela me trouxe de volta ao ninho.
Espero ser em breve convocado pro concurso e aprovado no vestibular, a fim de que possa cursar Letras e usufruir das dores e das delícias da Morada do Sol. As expectativas são grandes e as possibilidades de felicidade me parecem até menos egoístas do que de costume.


Visitem minha Rep, um beijos.

Sobre mingau e Coral Latex

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Deu um tempo com a parafernália da pintura no corredor e entrou pra comer um mingau de maizena. Mingau de maizena não é o tipo de coisa assim que se lamba os beiços, mas em tempo de intestino incostante é a melhor saída.
O rolo, o pincel, balde de tinta, lixa, escada aberta no meio do corredor, folhas de jornal davam um aspecto de bagunça temporária por um bem definitivo. Comer mingau, do mesmo modo, é uma espécie de bagunça intestinal temporária por um bem mais ou menos definitivo, já que seu estômago e intestino são definitivamente não-lineares.

O corredor ficou muito legal, acho mesmo que os 50 reais embolsados pela madre foram um bom investimento. Acho até que uns 80 seriam bem aplicados também. Subir no telhado, de ladinho na escada, de joelho no rodapé, a tinta caindo do teto no seu cabelo, tudo isso vale mais do que 50 reais e um mingau pra um estomago mal-humorado. Mas é quarta-feira de uma férias definitiva em um post escrito abstraidamente por mãos cheias de coral latex, então muito amor vida loka, muito amor.
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Festa estranha com gente esquisita

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Pode ser gordá
Pode ser feiá
Só não pode ser gorda e feiá

Como é sabido, o Interunesp é movido por gente estúpida e acéfala, por abadás coloridos sem qualquer dose de bom gosto e por musiquinhas como essa aí, que já de cara dão o caráter da festa: a ditadura da felicidade e da beleza fútil. Esses dias andando pela faculdade eu ouvi uma menina comentando com sua amiga: Meo, eu não me diverti como eu queria, nem consegui tirar fotos, nóssa, foi uma bosta..". É isso mesmo, o Interunesp são 4 dias que você agenda para ser feliz, e se não for, vai se martirizar pelo resto do ano.
Agora saiu a notícia na grande mídia de que rolou durante o Interunesp um jogo, organizado antecipadamente com regras e premiação, chamado Rodeio das Gordas. Consistia basicamente em subir em uma garota gorda e conseguir ficar por mais tempo.
Eu fico aqui com meus botões imaginando que tipo de coisa se passa na cabeça de uma pessoa que se presta a ir pra um lugar com mais 15 mil pessoas rigorosamente iguais, igualmente bestiais, que pretendem se divertir às custas de quem não se encaixa no padrão Meninas e Meninos de Abadá.
Juventude que ainda se liga nas balada da Atlética: Cancela o Interunesp e enfia o abadá no meio da bunda;
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Minha prostituição literária

sábado, 9 de outubro de 2010

Depois de pirulitar pelo campus eu fui atrás de um gole de café na sala do Observatório. Havia algumas pessoas por lá, pelo jeito tão de passagem quanto eu, conversando com seus pares, contando mentiras, trocando referências bibliográficas e simulando amplo domínio sobre alguma área do conhecimento. A Flávia era quem contava para a Neuza que estava fazendo uns freelas: escrevendo textos pra internet em troca de dinheiro. O dinheiro, segundo CARNEIRO (2010), é a nossa mediação universal com a realidade. Me pareceu um bom negócio esse de produzir textos em troca de algum, já que a minha relação com a realidade estava bastante desprovida de reais.
Então que a Flávia me indicou o caminho, eu fiz o teste e comecei a escrever textos pra uma pessoa que não conheço. Ela por sua vez os vende para outras pessoas que supostamente os postam em algum lugar da internet. Não sei, essa foi a informação que me deram, a verdade é que algumas vezes por mês eu recebo um e-mail pedindo alguns textos, eu os faço e no dia 10 cai na minha conta uma pequena quantidade de dinheiros, que já me ajuda a tocar a vida seca de bolsista que levo.
Os temas dos textos são os mais variados e improváveis. Já me passou pela cabeça que esse lance de que eles são pra internet é uma puta lorota. Imagino que na verdade há uma dúzia de senhores de terno em volta de uma mesa se divertindo com o produto de suas absurdas encomendas. Por exemplo, eu que tenho 21 anos, pertenço ao gênero masculino, sou heterossexual e bauruense já fui solicitado para escrever um lote de 3 textos sobre: Fazer as unhas, Celulite e Escova de cabelo. O que eu fiz? Precisava dessa grana companheiro, lá fui eu pelas ondas da internerd dissertar sobre como fazer uma boa escova, mesmo sem fazer a mínima idéia do que fosse uma:

Quanto mais liso, maiores poderão ser as mechas, quanto mais crespo, menor deve ser o tamanho delas. Separadas as mechas, acompanhe com o secador da raiz até as pontas, tomando o cuidado para que todas recebam o mesmo tratamento, primeiro as da frente e depois as de trás. Repete-se o procedimento até acabarem as mechas. Ao final é interessante dar um jato de ar frio com o secador, para dar mobilidade aos fios.

Quem aí não jura que esse texto não foi escrito por alguém da produção do Um dia de Princesa? Não respondam! Bom, eu continuo recebendo alguns pedidos, mês passado foram dez textos no total, sinal de que as abobrinhas que escrevo são minimamente aceitáveis. Os temas é que fodem com a gente, pois eles podem ser sobre determinado modelo de carro, passando pelo turismo na Nova Zelândia, dia do radialista e até cuidados necessários com as lentes de contato.
E vou seguindo assim, dissertando longamente sobre assuntos que desconheço.
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Sobre como encarar Duarte Vader

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Aprende, Fernando Becker
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A diferença diferente

sábado, 18 de setembro de 2010

Eu às vezes fico puto com o Paulo Freire por esse seu lado Mário Quintana. Por essa coisa viajada que parece tender ao relativismo, como por exemplo quando ele diz que ninguém ensina nada a ninguém, aprendemos uns com os outros mediados pelo mundo. Porra, eu acho que a gente sempre aprende com o outro mesmo, mas quem ensina, ensina algo a alguém sim. Senão não precisaríamos de professor e já basta de banalização da função dele nessa pretensa Sociedade do Conhecimento. Porém o velhinho barbudo sabe o que diz e tem licença poética, ética e estética pra esses escolanovismos, afinal sua vida e obra em função do Oprimido supera qualquer aproximação com o Rubem Alves.
Esses dias atrás eu li uma frase do bom velhinho que não poderia definir melhor a dialética entre diversidade e desigualdade, que tem me perturbado desde que eu comecei estudar esse lance de direitos humanos.


Essa relação entre a tolerância e a desigualdade é deveras complicada. De um lado existem aqueles discursos maquiados de prafrentex, que fazem da tolerância um fetiche e tudo vira uma questão de diversidade, esquecendo que existem conflitos que são insuperáveis a não ser pela via da luta política. De outro lado existem os pretensamente críticos, que vêem na tolerância uma alienação, supondo que ela significa inércia, banalizando a questão do respeito à identidade do outro e esquecendo que a educação cumpre também um papel na formação em valores.
E é por colocações como estas que eu ainda tenho meus momentos freireanos:

“Eu me bato muito pela tolerância, que para mim é uma virtude, revolucionária até. É esta possibilidade de conviver com o diferente para poder brigar com o antagonista. O antagonista é diferente também, mas é um diferente diferente.” Paulo Freire

Arroz de Ato-festa

sábado, 28 de agosto de 2010

Palavras do JC do dia 28 de agosto:
A tarde de ontem na Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru foi marcada por um protesto de aproximadamente 40 alunos de diversos cursos da Faculdade de Artes, Arquitetura e Comunicação (Faac) da universidade que reivindicavam em nome de três alunos, dois do curso de psicologia e um da pós-graduação, que estão sendo processados administrativa e civilmente pela entrada de bebida alcoólica dentro do campus, por danificar um quadro de energia e também o alambrado.

Alguém avisa a jornalista Bruna Dias que o protesto tinha bem mais de 40 pessoas e não era só de estudantes da FAAC. Também a foto com os estudantes sorrindo parece colaborar bastante com a insistência da mídia de que o fato gerado era uma rave e não um Ato-festa. A prova do GAC de que tinha bebida no campus? Uma foto de dois litros de pinga em frente à Atlética. Pouco forjada? Ao que parece se trata de um bando de vândalos que precisam de polícia porque, rapaz, eles destroem quadros de energia e alambrados!
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Homo Lattes

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A Universidade é um espaço privilegiado de produção de conhecimento. Através do ensino, da pesquisa e da extensão, ela tem o papel de produzir, socializar o conhecimento e articulá-lo a mecanismos de transformação social para além de seus muros.
É fenômeno conhecido daqueles que circulam pelos meios acadêmicos que tem predominado a lógica de um produtivismo toyotista na produção desse conhecimento. Cada vez mais os professores da UNESP e de outras universidades públicas buscam publicar um número maior de artigos e livros, fruto de seus estudos. Porém, isso não significa que eles estejam necessariamente interessados no avanço da ciência ou insanamente comprometidos com o trampolim de suas carreiras. Trata-se de uma questão de sobrevivência, afinal de contas a UNESP precisa estar a par dos renomados centros de pesquisa internacionais, custe o que custar. Embora nossa universidade esteja bastante distante do padrão e do contexto dos países com alto potencial científico, o produtivismo por aqui é buscado a todo custo: terrorismo por parte da burocracia acadêmica, rankings de produtividade de unidades e departamentos, programas de desenvolvimento institucional goela abaixo, etc.
Os alunos cumprem um papel fundamental nesse cenário, participando dos projetos de pesquisa, atrapalhando a vida de seus orientadores com tcc’s, turbinando seus lattes com mil e uma coisinhas sem importância, pleiteando as escassas bolsas de auxílio à pesquisa e à extensão, etc.
Interessante é que nem todos os alunos parecem atentar para o fato de que em uma universidade com sérios problemas estruturais, como a patológica falta de professores, tem se exigido uma produção de conhecimento em escala industrial, baseando-se em parâmetros quantitativos.
Quando surge uma paralisação de servidores pela melhoria estrutural e pelo reconhecimento da sua dimensão humana, a universidade entra em colapso e os professores doutores, com seus confortáveis 12% de reajuste, preferem não se solidarizar com a causa de quem ajuda a manter os campi em pé. Preferem tocar seus projetos de ensino, pesquisa e extensão aos trancos e barrancos, apesar dos movimentos de greve, afinal o lattes não pode parar.
Ao que parece, a UNESP caminha para a legitimação dessa lógica do homo lattes, mais do que para a construção de uma universidade comprometida com a produção e socialização de conhecimento com qualidade. O que se vê na prática é uma a corrida maluca dos rankings e dos currículos, tanto de professores como de alunos de pós e até mesmo de graduação. Não soará estranho se o próximo curso a ser criado na UNESP for Engenharia de Produção de Ciência e Conhecimento.
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Escrito para O Grito, jornalim do ME da Unesp Bauru
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